Galeria Laura Marsiaj

Waléria Américo: Delay

7 de agosto de 2012 › 22 de setembro de 2012

Galeria
Waléria Américo

Delay instaura o instante do “quase”, nele há um eco que reverbera diversas temporalidades e imprime a presença do incômodo. Nesse instante do ruído emerge a provocação e nele há força pulsante. Sim, há desejo na dissonância, há potência na concretude da condição de ser dois, do furor do encontro, do regozijo. Em Delay habita um estado regido pela inquietude, em fragmentos de vários espaços deslocados, do vazio e um lirismo além mar.

A exposição Delay da artista Waléria Américo apresentada na Galeria Laura Marsiaj no Rio de Janeiro, tem como núcleo central quatro obras (dois vídeos e dois objetos). No seu conjunto evocam fragmentos de um corpo poético, lugares amplificados, mínimas distâncias, pequenos estados do “ser/estar”; signos que evidenciam estratégias de transposição. Oscilação entre posições físicas e imaginárias; reverberam a instabilidade do som e, fazem vibrar, o território da tormenta, do vulcão em erupção e da fratura geográfica que emerge a ilha deserta.

No manuscrito “Causas e razões das ilhas desertas” Deleuze apresenta uma reconfiguração mitológica das ilhas desertas e a desloca da instância geográfica para imaginária; define as ilhas continentais, assim como as ilhas oceânicas e observa que esses dois tipos de ilhas “dão testemunho de uma oposição profunda entre o oceano e a terra”. Nessa eterna tensão nos faz lembrar que ora o mar está sobre a terra, ora a terra sob o mar e reconhece que os elementos em geral se detestam, “que eles têm horror um do outro”. Desse combate de polos ou gêneros revela que “de um modo ou de outro, a existência das ilhas é a negação de um tal ponto de vista, de um tal esforço e de uma tal convicção”. Deslocando para o campo da imaginação, observa que lá já se constatava “o duplo movimento que produz as ilhas em si mesmas”.

Dessa confluência de questões busco a metáfora da ilha para adentrar ao universo da cearense Waléria Américo. Começo pelo seu repertório composto por índices que remetem ao outro lugar, que flertam com o próximo instante noutro território e compõem uma cartografia que alimenta sua visualidade como: a escada, o trampolim, o balão, o balanço, as pernas de pau, a gangorra, os barcos, o píer (...) signos que evocam estratégias que se situam “no mirar”, “no escape”, “no percurso”, “nas estratégias de fuga”, que vislumbram uma nova linha do horizonte.

O desenho surge como uma matriz processual num sistema de “notas/imagens”. Dessa confluência de diversos mundos, tanto do plano geográfico quanto do poético, camadas de imagem se sobrepõem entre subjetividades e percursos. Suas pesquisas se desdobram em ações, fotografias, objetos, vídeos que potencializam a fricção entre imagem e corpo - como agente explorador - versus o outro lugar ou a “ilha deserta”.

E Deleuze continua no seu tratado sobre a ilha deserta “sonhar ilhas, com angústia ou alegria, pouco importa, é sonhar que está separando, ou que já se está separado, longe dos continentes, que se está só ou perdido; ou, então, é sonhar que se parte do zero, que se recria, que se recomeça”. O homem necessita sujeitar-se ao movimento que conduz à ilha nesse instante “a ilha seria tão somente o sonho do homem, e o homem seria a pura consciência da ilha” dessa confluência a “geografia se coligaria com o imaginário”.

Em Paragem, site specific, concretiza-se a possibilidade de experimentar o percurso, ali o mar é propício para navegação, é templo, é estado de convívio com o outro, cercanias de estabilidade, confluem entre terra e mar, entre corpo e desejo. O píer – estrutura em madeira que ocupa parte da galeria - é composto por peças que se encaixam, módulos que representam uma unidade fragmentada de vários corpos e derivações. Nessa obra Waléria Américo convida o espectador a desbravar o percurso, que se delineia como um mirante e conduz as especificidades de lugares e pertencimentos. Já em, Ao longe e ao longo (díptico em vídeo para micro telas), apresenta uma variação cromática “quente/frio”, que se acelera pelo óptico da câmera e nos captura para instabilidade do movimento entre tormentas e calmarias, uma paisagem ao fundo sinaliza uma ilha/farol, num jogo de zoom que conflita distância e proximidade.

Ao utilizar o corpo como unidade de medida, a artista percorre uma faixa de concreto que avança no mar, Mensurar, é o registro em vídeo de uma performance que desarticula o processo comum da ação, da medição do fluxo contínuo e do embate entre paisagem e transeuntes.Curvas em mar novo é uma instalação composta por sete barcos que interagem organicamente num fluxo de ordem/desordem, organização/caos e aponta para as instabilidades dos instantes. 

A turbulência do mar é áudio que reverbera em Delay, é mecanismo entre vetores ou guindastes de forças opostas, é o processo de ordenar, de permitir ser conduzido pela correnteza mesmo com a inquietação do novo, do desconforto, do próximo instante.

 

Bitu Cassundé

 

 

 

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