laerte ramos voltar para artistas

principal      curriculum      resenhas      leia+

GUERRA VÍTREA


À primeira vista os objetos são estranhos e familiares. Lembram-nos algo conhecido, próximo, porém não sabemos exatamente o quê. Há algo de doméstico neles e o maravilhamento da incerteza. A tentação de nos aproximarmos é proporcional ao temor de conspurcar a fragilidade de um mundo que parece fechado, preservado em si mesmo. A pele, sedutora e delicada, é reativa, por conta de algumas eventuais protuberâncias pontiagudas, agressivas até. A escala é a da mão, e também a do vacilo desta em esfacelar aquele equilíbrio vítreo.

Acesso Negado, Acesso Negrado, de Laerte Ramos explora a tensão da intimidade justamente no ponto sutil de sua porosidade – o trabalho jamais é confessional; ao contrário, ergue-se na inusitada divisória entre o adentrar e o preservar-se do mundo. Seus objetos evocam camadas de negociação menos entre o público e o privado do que do eu consigo mesmo: réplicas em escala diminuta de antigas máquinas de guerra, maquetes de objetos a um só tempo reclusos e “públicos” (e, por vezes, só o notamos após os observar longamente, tentando decifrar de onde os conhecemos – algumas jamais existiram senão como projetos – uma batalha do olho), eles têm o tamanho de brinquedos, mas não são para serem usados; possuem a durabilidade da cerâmica e o prenúncio de seus cacos. Tudo pede e repele a proximidade. O contato nunca é fácil, tocar pode ser destruir. Isso, contudo, não constitui uma repressão e sim o reencontro com uma sensualidade latente na matéria que escapa ao apelo óbvio e finalista. Por uma bela aporia, um trabalho como a cerâmica, cuja feitura depende tanto do uso direto e dedicado da mão instiga o espectador a tocar sua superfície com os olhos. De certo modo, eles reativam o desejo do olhar, ou melhor, um olho desejante.

Por outro lado, nestas pequenas negociações, uma guerra pessoal se trava nesse espaço quase asséptico e delicado. A questão não é o que se é negado, mas a presença evidente da zona de ninguém havida na fronteira entre invasão e interdição – il suffit d’avancer pour vivre, d’aller droit devant soi... – as paredes de cerâmica são analogias de nossa epiderme. Até onde eles invadem ou protegem? Há de fato ali distinção entre estas duas ações? O obstáculo se replica, do objeto em si (pois cada um deles agride e defende simultaneamente) para o antagonismo de seus duplos e da própria linguagem em espirais simétricas de negativos: acesso negrado (negrado, uma palavra a princípio inexistente, surge não só para descrever, mas extrapolar a cidadela dos significados classificados pela linguagem – ela também é invadida). O deslize da linguagem é equivalente a manobra astuta de percurso do olhar na atenção aos sutis movimentos que ali se desenrolam: a oposição dos objetos dispostos é aquela de cores, campos ocupados, exterioridade e interioridade, resistência e fragilidade.   Contudo, este épico domiciliar não se rende nem a domesticação nem a mistificação: sua aparente bagunça não declama retoricamente a crise de um sujeito ciclópico (ainda que espelhe sua potencial fragmentação – basta cair...), sequer o desalento da pequenez (como maquete da humanidade), mas o quanto nossa economia existencial acaba lidando em suas diferentes esferas com peculiares encruzilhadas de acessibilidade forçada no mundo: os conflitos do sujeito, sejam eles ensimesmados ou em sua afirmação diante do que lhe é externo – supondo-se viável tal distinção – não deixam de guardar consigo algo irônico, a saber, uma monumentalidade ao alcance das mãos e delas prevenida. Pelos olhos se redescobre a mão e, por extensão, a própria fluidez do sujeito na abertura de seus caminhos.

por Guilherme Bueno



A C.A.S.A.


Laerte Ramos faz parte de uma novíssima geração de artistas, onde a pesquisa poética tem se pautado pela expansão do conceito de cidade.

A cidade como lugar para a vivencia estética. Se viver numa cidade já é uma arte, colocar a imaginação a serviço de uma outra construção é propor rachaduras no espelho do real.

Mais do que uma presença marcante na pesquisa do artista , acidade se apresenta como uma estratégia de um jogo, onde o participante é convidado a desempenhar diversos papeis.

Em determinadas ações Laerte Ramos apresenta a cidade como palco, onde o artista intervém na lógica da produção de signos e imagens.

Em outros momentos a cidade é resultado de um jogo, proposto pelo artista, onde construção/ desconstrução são ações efetuadas pelos participantes, como sugere o pensador Roland Barthes se ‘a cidade é um discurso e esse discurso é na verdade uma linguagem’, o artista sem nenhum desejo utópico inventa um território, onde os meios de expressão, a gravura, o vídeo, o cartaz e a escultura são armas a serviço de quase um terrorismo poético.

Solon Ribeiro
novembro 2006.



                                                               DA MADEIRA À MÁQUINA

 
            Durante séculos, os atos de cortar, cavar e lixar foram considerados pouco artísticos, mesmo quando associados à gravura, meio inventado para reproduzir mecanicamente imagens da pintura e da escultura. No mundo moderno, porém, a gravura ganhou plena autonomia, pois a reprodutibilidade e os atos que a possibilitam tornaram-se virtudes. E é no registro do moderno, ou melhor, dos processos de modernização, que se situa o trabalho de Laerte Ramos, que encontra na xilogravura o meio ideal para discutir o mecanicismo, a serialidade e o seu principal produto: a máquina.

A discussão proposta por Laerte Ramos está longe de ser simples, pois entre o meio escolhido para a produção da imagem e a própria imagem não há uma relação harmônica de continuidade, mas uma relação tensa e de ruptura. Para o artista, a xilogravura é um meio artesanal, arcaico – qualidades que ele ao mesmo tempo referenda, com tiragens muito restritas, e solapa, utilizando o industrializado mdf em suas matrizes. E nesse meio, Laerte Ramos busca a frieza e a impessoalidade do mundo mecanizado, elaborando um vocabulário de formas cujo sintetismo evoca a objetividade dos ícones gráficos utilizados na sinalização de espaços públicos, padronizando-os e universalizando-os. Nada mais moderno, portanto.

A força do trabalho de Laerte Ramos não se deve somente ao uso inusitado do meio e ao vocabulário econômico, mas à sintaxe de poucas regras que lhe permite mostrar uma modernidade bizarra, não funcional, ludicizada. Os recortes introduzidos nas densas massas de preto formam imagens de objetos cuja finalidade é subvertida, resultando em veículos inertes, máquinas inoperáveis, vistas urbanas impossíveis. Um comentário irônico da vida nas grandes cidades e do caráter opressivo dos seus processos de constante, e quase sempre inútil, modernização.

 

por Magnólia Costa
2001